‘Sem ajuda do governo, setor aéreo não sobrevive’, diz presidente da Latam

Para executivo, com previsão de queda na demanda com excesso de oferta de aviões no próximo ano, muitas companhias podem desaparecer

SÃO PAULO – Jerome Cadier, presidente da Latam, odeia fazer home office. Ao menos duas vezes por semana vai ao hangar da Latam, em Congonhas, visitar o centro de operações, que segue trabalhando por conta dos 25 voos diários que a companhia ainda mantém — equivalentes a 3% da malha pré-pandemia do coronavírus.

Mesmo com essa redução drástica, os aviões estão vazios. Quando muito, fazem o transporte de médicos e equipamentos hospitalares. A situação é dramática para a aviação em todo o mundo, mas o pior ainda está por vir, acredita o executivo.

Em entrevista ao GLOBO, ele prevê uma queda brutal na demanda pelo transporte aéreo após a pandemia, da ordem de 30% a 40%. A combinação disso com um excesso de aviões no mercado vai pressionar os preços, dificultando a capacidade de as empresas recuperarem suas margens de lucro, diz.

“Vai ser um cenário muito crítico. Quem não tiver custo baixo, não sobrevive.” Por isso, ele cobra um socorro rápido do governo ao setor.

Quando se deu conta do tamanho da crise e que seria preciso deixar aviões no chão? 

– No fim de fevereiro, tínhamos reuniões diárias para avaliar o voo para Milão, e teve um dia em que a ocupação caiu para 40%. Os passageiros foram cancelando. No mesmo fim de semana, teve um voo da American Airlines em que a tripulação se recusou a voar. Aí a gente viu que, opa, o cenário está mudando. No domingo resolvemos parar o voo. Duas semanas depois, quando fomos desenhar a malha de abril, não tinha passageiro. Nenhuma venda. Dava uma malha de 50 voos. A gente opera 750. Aí a ficha caiu. Paramos tudo. E começamos negociação com sindicato, fornecedor. Daí para frente, para usar uma expressão de uma coisa que odeio, o funk, foi “créu velocidade 5” (referindo-se ao ápice da coreografia de “Dança do Créu”, hit dos bailes funks em 2008).

Como está a operação hoje, com a malha essencial?

– Estamos queimando combustível. A minha malha hoje não paga o custo variável. Os únicos países em que estamos operando hoje são Chile e Brasil, atendendo a uma demanda dos governos. O ideal hoje seria parar de voar.

Já dá para enxergar algum cenário pós-crise?

– Ainda é desafiador falar sobre o que vai acontecer daqui a um ano, mas algumas coisas já estão claras. O primeiro desafio é não fazer com que o futuro da companhia se resuma a 2020. É equacionar o caixa, folha, fornecedores etc. Mas depois vem uma segunda onda que também é forte e que vai deixar o setor muito diferente. Teremos menos passageiros e um excesso de capacidade empurrando os preços pra baixo. 

Fonte: Jornal O Globo

Principais da Semana