Com crise das aéreas, investimentos privados podem substituir os leilões

Setor já traça um cenário de baixa captação de recursos e aumento dos fundos de private equity; governo ainda mantém o cronograma tradicional de concessões

Os próximos leilões de aeroportos no Brasil podem apresentar um cenário de baixa concorrência ou até ser realizado sem a presença de operadores já consagrados no setor. A avaliação é de que, em um cenário com baixo espaço de captação de recurso, apenas fundos de private equity devem entrar se o leilão acontecer antes de um cenário mais claro para o mercado. Na outra ponta, as empresas já tradicionais estão com recursos limitados e lutam para manter sua operação e, diante da falta de previsibilidade para a demanda no futuro, tendem a ficar de fora.

Apesar da crise, o governo federal tem sido firme em manter o calendário de concessões, como o da sexta rodada, com certame programado para o fim deste ano. Os certames devem ter menos participantes caso ocorram em um cenário de dificuldade para a captação de recursos, segundo o CEO da Inframérica, Jorge Arruda.

Ele defende que premissas mais assertivas são necessárias para que os possíveis participantes definam sua entrada no leilão – como é seu caso – e nos próximos dois ou três meses o setor terá uma visão mais clara para o futuro dos negócios. “Sem essas premissas, na minha humilde visão, os únicos que vão participar são os fundos de private equity, que têm custo de captação muito menor do que nós operadores”, disse em videoconferência promovida pela Necta em parceria com o Fenelon Advogados.

O governo já discute exigências como a participação do operador no capital da concessionária para atrair fundos de private equity no certame, com as operadoras sendo contratadas.

Por sua vez, a Fraport Brasil afirma estar em modo de sobrevivência. “Estamos enfrentando agora investimento muito grande no novo terminal em Frankfurt, o projeto é pesado, e temos obrigação de praticamente construir um novo aeroporto em Lima. São obrigações já existentes. Não posso comentar nesse momento de que maneira a Fraport vai decidir como usar seus recursos financeiros. Depende tudo de como vai ser a retomada do tráfego na Europa”, disse a CEO Andrea Pal.

Governo mantém leilões

Mesmo com a crise, o governo federal também mantém firme o cronograma para a sétima rodadas de leilões de aeroportos, nas palavras do diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Tiago Sousa Pereira. Ele comemorou ainda o fato de o Brasil ser um dos poucos países a dar continuidade ao programa de concessões. De mudança, o governo apenas estuda abrir nova audiência pública para trazer atualizar os estudos de viabilidade para a sexta rodada, o que poderia fazer o leilão atrasar um pouco, para o início do ano que vem.

Os participantes foram provocados a comentar se a meta do governo de seguir o calendário de concessões não traria o risco de o País ter aeroportos com problemas no futuro. Segundo o CEO da Inframérica, os contratos novos passaram por grandes mudanças positivas.

“O modelo está muito mais aperfeiçoado hoje em dia. Ele está mais bem preparado para endereçar esse tipo de situação. E os investidores conhecem melhor o País e o potencial. Vão ser mais responsáveis. Eu vejo isso com risco baixo”, disse Arruda. A Inframérica negocia a devolução amigável do aeroporto de Natal (RN), leiloado em 2011.

Já Pereira ponderou que o modelo regulatório tem sido aprimorado e é diferente do que aconteceu em cenários de Olimpíada e Copa do Mundo. “Agora temos contrato mais formado para a operação e, de certa maneira, esses novos requisitos acabam corrigindo eventuais problemas de demanda futura”, disse.

Reequilíbrio

Os executivos no evento trouxeram um cenário positivo para o processo de reequilíbrio dos contratos por causa da pandemia. Pereira, da ANAC, destacou que a agência já começou a negociar com as concessionárias para medir o tamanho do reajuste das concessões. A estimativa, segundo reforçaram os próprios executivos, é de que o reequilíbrio se dê, ainda neste ano, com os efeitos de 2020 e, em um segundo momento, com acertos decorrentes dos impactos de 2021 em diante.

Andreea Pal demonstrou preocupação com o futuro do setor e com a readequação à nova realidade de operação, que pode elevar os custos. “Transporte aéreo não pode se tornar produto de luxo. Especialmente no Brasil com as distâncias que temos”, disse.

A Fraport tem atravessado um cenário delicado no Brasil, que pode ficar sem caixa sequer para amortizar os juros do empréstimo para as obras nos aeroportos de Porto Alegre e Fortaleza. “Neste ano achamos que o caixa não será suficiente para pagar os juros. Ano de 2022, provavelmente não vamos ter caixa para pagamento do principal do empréstimo”, disse. Os aeroportos da empresa no País estão hoje com 5% do número de passageiros de antes da crise e todas as lojas estão fechadas.

Por Cristian Favaro | Estadão

Fonte: Terra

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