Aeroportos com emissão zero de carbono: uma aspiração possível

O setor da aviação tem feito expressivos investimentos em medidas que já resultaram em avanços na redução de seu impacto ambiental. Tecnologias diversas, eficiências operacionais e melhorias na infraestrutura contribuíram para que mais de dez bilhões de toneladas de CO2 deixassem de ser emitidas pela indústria desde 1990

O Conselho Internacional de Aeroportos (Airports Council International – ACI World) e seus escritórios regionais nos cinco continentes acabam de firmar um compromisso ambicioso: a meta de reduzir a zero as emissões globais de carbono dos aeroportos membros até 2050. Não se trata de neutralidade, quando, após a redução possível de emissões, faz-se a compensação por meio de projetos de crédito de carbono. Estamos nos referindo agora a uma redução absoluta, sem compensações, em que tecnologias serão utilizadas para remover a totalidade de CO2 da operação aeroportuária.  Reconhecemos a magnitude do desafio e que os aeroportos não conseguirão transpô-lo sozinhos. Precisaremos contar com a comunidade da aviação, novos parceiros e, sobretudo, com os governos, por meio de incentivos e políticas públicas. Acreditamos, no entanto, que seja possível e é preciso começar já.

O setor da aviação tem feito expressivos investimentos em medidas que já resultaram em avanços na redução de seu impacto ambiental. Tecnologias diversas, eficiências operacionais e melhorias na infraestrutura contribuíram para que mais de dez bilhões de toneladas de CO2 deixassem de ser emitidas pela indústria desde 1990, e os aeroportos membros de ACI ocupam uma posição de liderança na abordagem de como minimizar e mitigar os impactos ambientais da aviação, o que tem sido demonstrado por meio de sua capacidade de reduzir as emissões, apoiada pelo Airport Carbon Accreditation (ACA), único programa global de acreditação de aeroportos que fazem gerenciamento de emissão de carbono.

O compromisso de ACI é baseado em um estudo realizado em parceria com ACF e Airbiz e está alinhado ao acordo de Paris e à recomendação do corpo de cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Noventa e um aeroportos na Europa já anteciparam a meta para 2030, o que aponta para outro desafio que teremos à frente: diferenças regionais e individuais serão fator de influência na velocidade e na forma como os aeroportos farão sua transição.

Neutralidade de carbono

A meta de carbono de longo prazo de ACI está relacionada às emissões sob o controle direto dos operadores de aeroportos, ou seja, aquelas oriundas de equipamentos, veículos e do consumo de energia dos terminais, a maior fonte de emissões. Reconhecemos que cada aeroporto tem suas particularidades, suas próprias necessidades e capacidade para seguir nesta trajetória de descarbonização. Por isso serão apoiados com ações estratégicas para que desenvolvam planos de ação e tenham acesso a linhas de financiamento “verde” em um acompanhamento revisado a cada cinco anos.

Na região da América Latina e Caribe, o Aeroporto Internacional de Quito e o Aeroporto Ecológico de Galápagos, ambos no Equador, já atingiram a neutralidade de carbono. Quarenta e seis aeroportos, que correspondem a 36% do tráfego aéreo da região, foram acreditados ou estão em processo de acreditação pelo programa Airport Carbon Accreditation, e quatro deles estão no Brasil: Salvador Bahia Airport – que, em 2021, pelo segundo ano consecutivo, foi escolhido pela Anac como o aeroporto mais sustentável do país na categoria com mais de 5 milhões de passageiros – BH Airport, Aeroporto de Natal e Aeroporto de Brasília.

Entendemos que os aeroportos são parte integrante da resposta às mudanças climáticas e que nossa permissão para operar e crescer ganha legitimidade à medida em que contribuímos para a economia global, mantendo a geração de milhões de empregos e promovendo o desenvolvimento sustentável.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Rafael Echevarne
Rafael Echevarne é o diretor-geral do Conselho Internacional de Aeroportos – América Latina e Caribe (ACI-LAC). Anteriormente, foi CEO do Aeroporto de Montego Bay, Jamaica, e ocupou cargos em organizações internacionais e empresas aeroportuárias na Europa, Australásia e Oriente Médio, tornando-se especialista em regulamentação econômica aeroportuária, privatização e infraestrutura e desenvolvimento de negócios. Rafael é PhD em economia e transporte aéreo pela Cranfield University, no Reino Unido.

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