Setor aéreo só terá retomada efetiva com avanço da vacinação em massa!

Embora tenhamos recentes sinais de que há uma tendência de reaquecimento motivada, principalmente, pela vacinação contra a Covid-19, vale lembrarmos os efeitos da crise e como o trabalho colaborativo entre companhias aéreas e poder público contribuiu para chegarmos em pé até aqui

A aviação comercial brasileira ainda sofre com os impactos da pior crise da história do setor, deflagrada pela pandemia do novo coronavírus. Embora tenhamos recentes sinais de que há uma tendência de reaquecimento motivada, principalmente, pela vacinação contra a Covid-19, vale lembrarmos os efeitos da crise e como o trabalho colaborativo entre companhias aéreas e poder público contribuiu para chegarmos em pé até aqui, ressaltando que a recente alta dos preços do querosene de aviação (QAV), assim como a cotação do dólar ainda extremamente elevada em relação ao real podem inibir uma retomada mais consistente. 

Em abril de 2020, o pior mês da pandemia para o setor, a malha aérea doméstica das companhias foi reduzida a 6,8% da oferta no início de março de 2020, antes das medidas de isolamento social e fechamento de fronteiras. A partir de maio do ano passado, o setor começou a registrar um crescimento tímido, mas gradual das decolagens diárias até alcançar o pico em janeiro de 2021, quando chegamos a 75% da malha regular.

O agravamento da pandemia, porém, fez os indicadores recuarem novamente em fevereiro e março, atingindo o pior nível de 2021 em abril, quando a malha doméstica ficou em 35,6% da oferta pré-pandemia. A partir de maio, novos sinais de leve recuperação, sendo que em junho a oferta alcançou o equivalente a 51,4% da média diária de voos antes da pandemia. São evidências de que o aumento no ritmo de vacinação tem sido decisivo para a aviação comercial, garantindo segurança aos passageiros e colaboradores.

Um bom exemplo de como o avanço da vacinação resulta na retomada do setor aéreo vem dos Estados Unidos. Lá, em torno de 325 milhões de doses já foram aplicadas, beneficiando 47% da população, segundo o site de dados e pesquisas Our World in Data, utilizado pelos principais veículos de imprensa norte-americanos. Com isso, os indicadores do setor aéreo reagem rapidamente. Os sistemas de segurança da Administração da Segurança dos Transportes (TSA, na sigla em inglês) registraram, nos dias 11 e 13 de junho, mais de 2 milhões de passageiros por dia. Segundo a TSA, é a primeira vez que essa marca é registrada durante a pandemia.

Blocos de ações

Chegar até aqui só foi possível porque as companhias aéreas e a ABEAR, desde os primeiros sinais da pandemia, elaboraram um programa com três blocos de ações para manter o país conectado:

O primeiro bloco foi interno, de pouca visibilidade pública, ligado à redução de custos e revisão de contratos. A segunda frente foi construída em diálogo com o governo federal e os estados, destacadamente com os Ministérios da Infraestrutura por meio da Secretaria de Aviação Civil (SAC) e da Infraero, da Defesa por meio do DECEA, do Turismo, da ANAC, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e da Anvisa. Como resultado, uma série de ajustes em regulamentações e normas permitiram manter o país conectado. A medida de maior visibilidade para os consumidores foi a que permitiu que todos os que tinham um bilhete pudesse remarcá-lo por até um ano sem qualquer custo, iniciativa que foi prorrogada recentemente. Foi também nesta agenda que os aviões puderam ser estacionados nos pátios da aeronáutica e da Infraero, assim como foram diferidas uma série de tarifas aeronáuticas.

O terceiro bloco foi o de demandas econômicas. Pedimos uma linha de crédito ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o resgate do saldo de FGTS para colaboradores em licença não remunerada. Infelizmente estas demandas, ao contrário do que aconteceu ao redor do mundo, não foram atendidas. Cada empresa, a partir daí,  construiu alternativas para aliviar o caixa quando demanda e receita despencaram.

Em paralelo, a ABEAR manteve sua agenda de trabalho para o período 2020/2021, com oito frentes de ação tendo como foco a superação da crise:

– Enfrentar o alto custo do querosene de aviação (QAV), que no Brasil é um dos mais caros do mundo

– Atuar para alinhar o Brasil às melhores práticas mundiais e reduzir a judicialização do setor

– Apoiar investimentos em Infraestrutura e ampliação da utilização de carga aérea 

– Atuar para seguir alinhando nosso ambiente regulatório com o mercado internacional a fim de  aumentar a eficiência do setor;

– Apoiar as Concessões aeroportuárias

– Atuar no processo de Reforma Tributária para apoiar a retomada do desenvolvimento econômico do país

– Atuar na construção de uma política de Aviação regional para aumentar a conectividade do país

– Atuar na construção de um programa de estímulo às viagens aéreas, após a vacinação em massa se tornar uma realidade

Em meio a este cenário, vale ressaltar que a aviação brasileira cumpriu com seus compromissos com o país, ao oferecer-se para repatriar todos os que estavam no exterior quando a crise eclodiu e também para transportar gratuitamente os profissionais de saúde que atuam no combate a pandemia, os insumos e respiradores, e finalmente, também de forma gratuita, as vacinas que estão sendo ministradas em todo o país.

Vacinação contra a covid-19

Concluindo, reitero que a retomada da aviação comercial e da vida cotidiana do Brasil está vinculada à massificação e aceleração da vacinação contra a Covid-19. É isto que fará com que o setor aéreo e um extenso conjunto de atividades correlatas retomem seu vigor, estimulem o hábito de viagens e a realização de eventos para que voltemos a ser protagonistas no desenvolvimento social e econômico do país.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Eduardo Sanovicz
Presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR). Graduado em história, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP e professor doutor do curso de turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). Já atuou como consultor-sênior em programas e ações na área de marketing e turismo, foi diretor da Reed Exhibitions Alcantara Machado (2007 a 2011); vice-presidente da ICCA — International Congress & Convention Association (2001 a 2007); presidente da Embratur (2003 a 2006), sendo responsável pela implantação do Plano Aquarela e pela criação da Marca Brasil; presidente da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo (2001 a 2003); diretor de operações do São Paulo Convention & Visitors Bureau (1997 a 2000); e diretor de turismo da Prefeitura Municipal de Santos (1993 a 1996).
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