Custos estruturais inibem retomada consistente da aviação

Daqui para a frente, nossas projeções indicam que a retomada da malha aérea doméstica prosseguirá até o fim do ano, quando poderemos alcançar entre 80% e 85% da quantidade de decolagens diárias registrada antes da pandemia

O mês de agosto trouxe para as companhias aéreas brasileiras a confirmação da tendência de reaquecimento da demanda por voos domésticos: pelo quarto mês consecutivo, a média diária de decolagens reagiu, com 1.680 partidas, ou o equivalente a 70% da malha aérea nacional no início de março de 2020, quando a pandemia do novo coronavírus ainda não havia impactado severamente o setor. Antes de qualquer comemoração, no entanto, é preciso lembrar que os custos estruturais do setor ainda podem inibir uma retomada mais consistente.

Historicamente, o querosene de aviação (QAV) é o item de maior ineficiência econômica para as companhias aéreas brasileiras. O mais recente levantamento da ABEAR sobre o combustível dos aviões revela que, no primeiro semestre de 2021, o preço médio do QAV na bomba, no Brasil, foi 24,6% superior do que nos Estados Unidos. Contribuiu para essa situação o fato de que o Brasil é o único país do mundo que tem um tributo regional sobre o QAV, o ICMS. As companhias estrangeiras, por sua vez, não pagam esse imposto para abastecer em território nacional. É por isso que uma viagem internacional muitas vezes é mais barata do que um voo doméstico, considerando-se distâncias similares. Por isso, sempre defendemos o alinhamento do Brasil às regras do mercado global para que haja condições iguais de competitividade.

A volatilidade da cotação do dólar em relação ao real é outro gargalo histórico para as companhias aéreas. De acordo com o Panorama da ABEAR, conjunto de análises, dados e informações sobre a aviação comercial brasileira, em 2020, durante o pior ano para o setor aéreo, a moeda norte-americana teve valorização de 31% diante do real. Importante observar que no ano passado, com o fechamento de fronteiras que ainda perdura, as viagens aéreas internacionais entre as empresas brasileiras despencaram. Vale observar que menos receita em dólar significa mais exposição ao câmbio. Situação complicada para um setor onde a moeda norte-americana indexa 51% de seus custos.

Outro dado do Panorama 2020 da ABEAR chama a atenção para a discussão dos custos estruturais: a desvalorização da cotação do real em relação ao dólar no ano passado fez com que a participação de seguros, arrendamentos e manutenção de aeronaves subisse para 18% dos custos do setor, em comparação com os 11% do ano anterior. Aqui, temos mais um tema que desalinha o mercado brasileiro com as melhores práticas internacionais, já que a partir de fevereiro deste ano as empresas aéreas começaram a pagar uma alíquota de 15% de Imposto de Renda sobre o leasing de aeronaves, sendo que historicamente não havia essa cobrança justamente pelo alinhamento com as regras globais do setor. 

Daqui para a frente, nossas projeções indicam que a retomada da malha aérea doméstica prosseguirá até o fim do ano, quando poderemos alcançar entre 80% e 85% da quantidade de decolagens diárias registrada antes da pandemia. Somente no primeiro trimestre de 2022 deveremos retornar aos patamares normais de operação doméstica. Para o mercado internacional, o atual cenário de fronteiras que permanecem fechadas leva para uma recuperação apenas em 2023 ou 2024. Fundamental destacar que essas previsões estão sempre vinculadas à vacinação em massa e ao enfrentamento dos custos que podem inibir uma reação mais vigorosa de um setor que catalisa dezenas de outras atividades e que fortalece o Turismo, contribuindo para o reaquecimento da economia brasileira. Estes são os cenários que podem ser comprometidos por estes custos que não encontram similar em nenhuma parte do mundo e afetam duramente a aviação nacional.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Eduardo Sanovicz
Presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR). Graduado em história, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP e professor doutor do curso de turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). Já atuou como consultor-sênior em programas e ações na área de marketing e turismo, foi diretor da Reed Exhibitions Alcantara Machado (2007 a 2011); vice-presidente da ICCA — International Congress & Convention Association (2001 a 2007); presidente da Embratur (2003 a 2006), sendo responsável pela implantação do Plano Aquarela e pela criação da Marca Brasil; presidente da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo (2001 a 2003); diretor de operações do São Paulo Convention & Visitors Bureau (1997 a 2000); e diretor de turismo da Prefeitura Municipal de Santos (1993 a 1996).

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