PREÇO DO COMBUSTÍVEL DOS AVIÕES EM ALTA E RECORDES DE VALORIZAÇÃO DO DÓLAR AMEAÇAM SETOR AÉREO

Somente no primeiro trimestre deste ano, o combustível dos aviões registrou alta de 91,7% em relação ao mesmo período de 2020. No acumulado de janeiro a outubro, o aumento já é de 71,1%

 

A disparada do preço do querosene de aviação (QAV) em 2021, aliada aos constantes recordes de cotação do dólar em relação ao real, trazem um sinal de alerta para a aviação comercial brasileira. Somente no primeiro trimestre deste ano, o combustível dos aviões registrou alta de 91,7% em relação ao mesmo período de 2020. No acumulado de janeiro a outubro, o aumento já é de 71,1%, superando as variações de combustíveis que têm sido apontados como um dos principais impulsionadores da inflação brasileira, a gasolina e o gás de cozinha.

Como a média histórica da participação do QAV nos custos totais das companhias aéreas supera 30% e mais de 50% dos gastos totais do setor são indexados pela moeda norte-americana, essa distorção em comparação com mercados de referência global pode, sem dúvida, ameaçar uma retomada mais consistente da operação aérea, já severamente impactada pela pandemia do novo coronavírus desde 2020.

É fundamental destacar que o peso dos custos estruturais do setor aéreo vão além do querosene de aviação e da escalada da cotação do dólar em relação ao real. Só o Brasil onera as empresas aéreas com um imposto regional sobre o combustível dos aviões. É o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que faz com que muitas vezes um voo ao exterior seja mais barato do que um voo doméstico, levando-se em conta distâncias similares. As empresas estrangeiras, por sua vez, não são tributadas pelo ICMS por causa de acordos e convenções internacionais para garantir a igualdade de competição global. 

Desde meados de fevereiro deste ano, as companhias aéreas também pagam 15% de Imposto de Renda sobre leasing de aeronaves, sendo que nunca houve essa cobrança no país por causa dos acordos que já mencionei para que haja isonomia na competição da aviação comercial em todo o mundo, um dos principais pilares da ABEAR – Associação Brasileira das Empresas Aéreas desde a sua fundação. É por isso que sempre trabalhamos com planejamento e condução de soluções por meio de transparência, diálogo e esforço colaborativo e permanente com toda a cadeia aeronáutica e do turismo, o poder público e o Congresso Nacional.

Temos visto algumas iniciativas que estão no caminho do enfrentamento do Custo Brasil. Um exemplo recente é a aprovação, pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) do uso do querosene de aviação tipo Jet A no país. Essa medida poderá significar uma economia anual de cerca de US$ 10 milhões, já que esse combustível poderá ser importado e refinado no Brasil, ampliando a oferta de combustíveis. 

Mesmo enfrentando os desafios dos custos estruturais em alta, nossas projeções indicam que deveremos encerrar 2021 com cerca de 85% da oferta de voos domésticos que as empresas aéreas operavam no início de março de 2020, quando a pandemia ainda não havia impactado a operação aérea e prevemos a malha aérea nacional deverá estar integralmente operando ao longo do primeiro trimestre de 2022.

No mercado internacional, a média diária de partidas é de 64 em novembro, ou o equivalente a 32,8% da oferta pré-pandemia. Nossa perspectiva aponta para a normalidade da oferta de voos internacionais até o fim de 2023, devido principalmente às fronteiras que ainda permanecem fechadas aos brasileiros. Importante observar que todas essas previsões estão condicionadas ao ritmo de vacinação contra a Covid-19, ao não agravamento da pandemia e ao enfrentamento do Custo Brasil.

Somente por meio de muito aprendizado, diálogo com todos os stakeholders da cadeia do transporte aéreo e do turismo é que poderemos desenvolver uma condução assertiva de soluções. Assim, estaremos preparados para encarar novos desafios e superar gargalos históricos. Reitero que a interlocução permanente com o poder público e o Congresso Nacional é peça fundamental para que o setor aéreo busque alternativas para enfrentar o Custo Brasil e possa transportar cada vez mais pessoas, atendendo mais destinos, especialmente regionais, estimulando as economias e o turismo de todas as localidades atendidas pela aviação comercial.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Eduardo Sanovicz
Eduardo Sanovicz
Presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR). Graduado em história, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP e professor doutor do curso de turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). Já atuou como consultor-sênior em programas e ações na área de marketing e turismo, foi diretor da Reed Exhibitions Alcantara Machado (2007 a 2011); vice-presidente da ICCA — International Congress & Convention Association (2001 a 2007); presidente da Embratur (2003 a 2006), sendo responsável pela implantação do Plano Aquarela e pela criação da Marca Brasil; presidente da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo (2001 a 2003); diretor de operações do São Paulo Convention & Visitors Bureau (1997 a 2000); e diretor de turismo da Prefeitura Municipal de Santos (1993 a 1996).

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