PLATÃO TINHA RAZÃO! REFLEXÕES SOBRE INOVAÇÃO NA AVIAÇÃO CIVIL

Qualquer empresa que deseje crescer, melhorar sua eficiência e criar valor tem que desenvolver uma cultura corporativa de buscar inovação em seus produtos, serviços e processos

Sem entrar na discussão das muitas definições de inovação, é importante destacar que os líderes empresariais reconhecem que inovação é importante, mas que a abordagem de suas empresas para esse tema é usualmente muito informal e o processo decisório para adoção de inovações desestimula um número maior de iniciativas. Eles também concordam que o maior desafio é encontrar talentos na área, mas discordam do porquê dessa carência. Felizmente, é consenso geral que há alguns passos importantes a se seguir para instigar inovação.

Criar estruturas organizacionais específicas para desenvolvimento de inovação não é um desses passos. Como dito no início, a cultura de inovação é muito mais eficaz do que a estrutura de inovação. Ou seja, os processos de inovar têm que estar permeados em todos os departamentos da corporação. Mas, como se faz para instilar tal cultura? Como provocar os colaboradores para continuamente pensar, respirar e borbotar inovações?

Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas (a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental), afirmou: “A necessidade é a mãe da inovação.” Então, aqui está o (melhor) caminho para responder à pergunta acima! Mapeie e identifique as necessidades (de redução de custo de um processo, de satisfação de um cliente, de melhoria de um produto ou serviço) de seu departamento ou de sua empresa. Uma necessidade não atendida motiva a criação de uma solução para atendê-la – que, por sua vez, traz imensos resultados positivos, justamente por solucionar algo necessário.

Após se ter escolhido este caminho primordial de focar na identificação de necessidades não atendidas, há que haver vontade de encarar alguns princípios secundários da inovação: (i) estar aberto a novas ideias, (ii) ter disposição para experimentar e (iii) estar preparado para assumir riscos – e as consequentes “falhas de aprendizado”. Sem enfrentar essas características intrínsecas ao processo inovativo, é certo que o desenvolvimento da solução de uma necessidade será abortado antes de dar frutos. Lembremo-nos das 1.200 tentativas malsucedidas de Thomas Edison até finalmente inventar a lâmpada elétrica…

Um levantamento feito pelo Boston Consulting Group que identificou as 20 companhias mais inovadoras do mundo comprova esses princípios. A Apple, primeira colocada nesse ranking, prima por entregar uma fantástica experiência do cliente com designs extremamente modernos, enquanto produz um fluxo constante de novas ideias que redefinem velhas categorias de produtos. A 3M, em segundo lugar, possui uma forte cultura interna de criatividade com incentivos formais para quem inova e desenvolve novos produtos, acabando por obter uma enorme taxa de sucesso em converter ideias em produtos rentáveis. Já a Microsoft, em terceiro lugar, se caracteriza por um pensamento gerencial que pressiona por desenvolvimento contínuo de produtos e expansão para novos mercados. 

Ao se olhar para a indústria da aviação civil, com tantos e distintos segmentos de negócios, fica claro que há um gigantesco campo para inovação, principalmente por haver tantas oportunidades de necessidades prementes não atendidas – sejam elas oriundas de melhorar a jornada do cliente, aumentar a eficiência operacional (custo, receita e tempo) dos processos, incrementar a produtividade das equipes, garantir melhores resultados nas áreas de safety e segurança AVSEC ou criar novos nichos de negócios. As possibilidades são, de fato, ilimitadas!

Algumas iniciativas já adotadas por aeroportos, companhias aéreas, empresas de serviços auxiliares e fabricantes do setor delineiam bem esse fértil campo de oportunidades. Na maioria das vezes, para solucionar uma necessidade não atendida, é preciso associar a boa ideia ao emprego de tecnologia (uma das principais e mais eficientes ferramentas do homem moderno), mas isso não é condição necessária. Algumas vezes, basta um olhar crítico sobre um processo que pode ser aperfeiçoado fazendo-se algo diferente. Outras vezes, é fundamental investir em infraestrutura física. Ou, mesmo, aplicar uma mistura de tudo. Enfim, como já dito, oportunidades abundam! Do tanto do que já foi inovado e do que pode ainda ser criado, pinço aqui três exemplos reais que ilustram essas reflexões: 

  • Sistema de chamada sequencial de embarque “Tapete AZUL”:  O Tapete Azul é uma novidade do operador aéreo AZUL Linhas Aéreas Brasileiras, que utiliza uma combinação de tecnologia de projetores de imagens e algoritmos de software para conduzir os clientes a um embarque mais ágil, evitando filas longas ou aglomerações no portão, além de preservar o distanciamento social no aeroporto. Visualmente muito simples para os passageiros, basta eles identificarem os seus assentos no projetor e se dirigirem ao “tapete” projetado no chão na hora de embarcar. O sistema evita a formação de gargalos no corredor com as bagagens de mão, sem necessidade de sentar-se e levantar-se várias vezes até que todos estejam acomodados, priorizando a segurança e o conforto do embarque até o destino.
  • Vagas “Kiss & Go” de desembarque expresso no meio-fio de aeroportos: A expressão pode surpreender em um primeiro momento, mas é exatamente esse conceito que a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos implantou para as chamadas vagas rápidas de automóveis para desembarque expresso de passageiros no meio-fio do aeroporto. Mais de 30 delas foram reservadas em frente ao setor de embarque, para veículos com passageiros. Um tempo máximo – e muito rápido – de permanência é estabelecido pela expressão “kiss and go” (beijo e tchau). A ideia de implantar o conceito em Viracopos foi inspirada no modelo aplicado nas estações de metrô da cidade de Toronto, no Canadá. É o tempo de o motorista dar um beijo no passageiro e ir embora, para criar um fluxo expresso de veículos sem atrapalhar o trânsito.
  • Plataforma de viagens “123 Milhas”:  Essa plataforma utiliza um software que negocia e transforma milhas que seriam perdidas por outras pessoas em viagens com preços mais em conta para prospectivos passageiros. Com isso, a empresa que opera a plataforma consegue voos até 50% mais baratos para quem quer economizar e viajar mais. Ela também oferece opções em hotéis e pacotes de viagens, seguro e aluguel de carros.

Obrigado, Platão, por nos ensinar o caminho!

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Marcelo Mota
Marcelo Mota
Engenheiro, com mestrado MBA pela Universidade de Warwick na Inglaterra, Marcelo Mota é o Diretor de Operações da Aeroportos Brasil Viracopos. Ele foi Vice-Presidente Associado do TD Bank, Diretor de Programas de TI na Greater Toronto Airports Authority, e Diretor do Project Management Institute em Ontario, Canadá.

Principais da Semana