CDM (COLLABORATIVE DECISION MAKING) DA MODA AO MODO, REMANDO CONTRA A MARÉ!

Será que compreendemos – todos nós, que atuamos na área do transporte aéreo, do que se trata, efetivamente, este MODO de operação e quais suas implicações naturais? 

Após 35 anos de atividade, nas mais diversas áreas do transporte aéreo, sinto-me no direito (ou melhor seria, no dever) de remar contra a maré, no que diz respeito ao abismo existente entre MODA e MODO, quando o assunto é CDM (Collaborative Decision Making), no transporte aéreo.

Oriundo de regiões onde o volume de tráfego aéreo é substancialmente maior do que na América Latina – em caso de dúvida, sugiro uma rápida visita aos sites de visualização do tráfego mundial, em tempo real, a MODA CDM tem literalmente varrido a região, ao longo dos últimos 5 anos. 



Inquestionável enquanto MODA, o CDM propõe princípios louváveis de colaboração e compartilhamento de esforços e informações, entre diferentes entidades que tem operado, historicamente, em “modo competição”, quanto ao compartilhamento de recursos finitos, muitas vezes sujeitas a interesses conflitantes.     

Mas voltemos nosso olhar, ao MODO CDM de operação, em transporte aéreo. Será que compreendemos – todos nós, que atuamos na área do transporte aéreo, do que se trata, efetivamente, este MODO de operação e quais suas implicações naturais? 

Não há dúvida de que a ideia de uma operação ininterrupta, desde o embarque dos passageiros, no aeroporto de origem, até o desembarque, no aeroporto de destino – sem esperas no gate, com manobras ágeis de pushback e táxi, sem órbitas em voo, etc. é extremamente sedutora.  Ainda mais quando tal paraíso operacional advém, justamente, da colaboração entre os participantes do transporte aéreo! 

Redução no consumo de combustível e na emissão de CO2, maior previsibilidade da operação – justas e legítimas promessas da MODA CDM. Mas vamos aos fatos do MODO CDM de operação.  

Semestralmente, em nível internacional, são definidos os chamados slots de operação, visando garantir o equilíbrio entre capacidade (aeroportos e espaço aéreo) e a demanda de voos, por parte das companhias aéreas. 

Há de se recordar, entretanto, que os slots fazem parte do planejamento estratégico para a temporada, não contemplando, obviamente, as diversas situações imponderáveis a que estarão sujeitas as operações, em tempo real – fenômenos meteorológicos, falhas mecânicas, panes de sistemas, atraso de passageiros, procedimentos de imigração e alfândega e tantas outras.

Por esta razão, o equilíbrio capacidade/demanda perseguido pelos slots, durante o planejamento estratégico da operação, será naturalmente corrompido pelos fatores imponderáveis, inerentes à operação aérea, contaminando o ideal da máxima eficiência operacional gate-to-gate.

Para dar solução a este inevitável impasse, foi necessária a introdução de uma iniciativa tática, com atenção voltada ao momento exato de cada operação, considerando o impacto causado pelos fatores imponderáveis prévios que, com frequência, terão levado ao desequilíbrio da equação capacidade/demanda.

É justamente neste ponto, que há de se correr o risco de remar contra a maré e alertar a todos os envolvidos, para o impacto do MODO de operação CDM, em concepções e percepções históricas do transporte aéreo, que a MODA CDM tem, via de regra, ignorado.

Há um princípio físico no universo, que rege todas as interações humanas, nas quais múltiplos usuários compartilham recursos finitos – a redução da flexibilidade individual, leva ao aumento da disponibilidade global, produzindo níveis mais elevados de previsibilidade, na utilização dos recursos.

É disto que se trata a adoção do MODO CDM em ambiente aeroportuário – redução de flexibilidade individual das companhias aéreas, na reserva dos recursos necessários à decolagem de seus voos, visando o aumento da disponibilidade global destes recursos, proporcionando maior previsibilidade às operações.  

Remar contra a maré, no contexto atual, significa lançar uma luz sobre o espaço entre a MODA e o MODO CDM e chamar a atenção para os efeitos colaterais do CDM, tão inevitáveis quanto frequentemente ignorados.  

  • Estão as companhias aéreas, preparadas para atrasar a saída de seus voos, em função da indisponibilidade momentânea de recursos – em terra ou em voo, até que possam realizar uma operação ininterrupta?
  • Estão as agências reguladoras, preparadas para considerar que voos com decolagem postergada pela indisponibilidade momentânea de recursos, não evidenciam “atraso” da companhia aérea?
  • Estão os passageiros preparados para compreender que o CDM substituirá as demoras previstas para seus voos (em terra ou em voo), por tempo de espera para embarque, no aeroporto de origem? 

Estas são algumas das questões que, neste momento, obrigam-me a remar contra a maré e alertar para o espaço significativo, crítico e inevitável, que existe entre a MODA CDM e o MODO CDM de operação no transporte aéreo.

São concretos e legítimos os benefícios promovidos pela MODA CDM (redução no consumo de combustível e na emissão de COs, etc.), como inevitáveis são as implicações advindas da adoção do MODO CDM de operação.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Sergio Martins
Engenheiro, formado pela UFRJ, com Pós Graduação em Administração, Marketing, Comunicações e Comércio Exterior. Diretor de Serviços de Tráfego Aéreo da Saab e membro do Grupo de Trabalho ATFM/A-CDM da CANSO. Iniciou sua atividade professional como Controlador de Tráfego Aéreo, em 1983, no Controle de Aproximação do Rio de Janeiro. Ainda na área técnica, trabalhou como Despachante Operacional de Voo e Engenheiro de Operações na VARIG. Passou à indústria em 1993, trabalhando na mais conceituadas empresas multinacionais do setor. Acumula mais de 30 anos de experiência em distintas áreas operacionais e comerciais do transporte aéreo internacional.

Principais da Semana