VOAR NO BRASIL É CARO … MAS É CARO MESMO?

Não há diferença significativa entre as tarifas aéreas cobradas no Brasil e em outros países, desde que as bases de comparação sejam compatíveis.

Há um sentimento disseminado de que voar no Brasil é caro, que como se pode ver permeia toda a sociedade, até as mais altas autoridades.  Essa, entretanto, não é a realidade.

Dediquei-me a um exercício que já fiz pelo menos meia dúzia de vezes, sempre com resultados parecidos: acionei um programa de VPN, para mudar virtualmente minha conexão de internet para Miami (isso às vezes altera os resultados das pesquisas), e procurei os preços para voos similares ao Brasília-Recife, estimado em cerca de R$ 6 mil.

Escolhi Washington-Miami: Washington também é capital federal e Miami, como Recife, é uma cidade com demanda turística e de negócios.  A distância de Brasília a Recife é de aproximadamente 1.650km; a distância de Washington a Miami, aproximadamente 1.490km

Na American Airlines uma passagem comprada para viagem de ida no dia seguinte, e retorno um dia depois da chegada – perfil típico de um deslocamento para um velório – custava US$1.212, mais taxas.  Na Delta, US$1.144.  Levando em conta a cotação de R$5,66 por dólar, válida no momento em que escrevo este texto, os preços em reais são de R$6.860 da American, e R$6.475 na Delta.

Ora, dirão alguns, é na Europa que as passagens são realmente baratas!

Não por isso: Londres a Lisboa faz um par comparável a Brasília e Recife, com 1.585km de distância separando-as.

A Ryanair cobrava, para uma passagem comprada no mesmo perfil de viagem no dia seguinte a partir do aeroporto de Stansted, £457,31, equivalentes a R$3.440 – e vamos lembrar que check-in pessoal, assento designado, possibilidade de levar bagagem de mão a bordo e prioridade de acesso ao avião são todas facilidades cobradas à parte na ultra-low-cost.

Não há diferença significativa entre as tarifas aéreas cobradas no Brasil e em outros países, desde que as bases de comparação sejam compatíveis.

Se o prazo de antecedência de compra for similar, se forem evitados feriados e períodos de férias, se o perfil do par de cidades for compatível, e se forem levados em conta os serviços adicionais garantidos pelo regulamento brasileiro e cobrados à parte em outros países, as tarifas são rotineiramente comparáveis.

OK, dirão muitos, mas a renda dos passageiros nos Estados Unidos ou na Inglaterra é muito maior do que a nossa – e esse é um fato inegável.

A questão, entretanto, é que os custos das empresas brasileiras são majoritariamente em dólares, ou outras moedas estrangeiras.

O combustível acompanha o preço internacional do petróleo e a cotação do dólar.  O arrendamento dos aviões, dólares.  Os seguros, dólares ou euros.  A manutenção dos componentes e dos motores, e as peças de reposição, dólares ou euros.  Os serviços de atualização de banco de dados de navegação, dólares.  Os serviços de assistência técnica dos fabricantes dos aviões e dos motores, dólares ou euros.

Em reais, salários de tripulantes e do pessoal de manutenção, serviços de comissaria e de atendimento no solo dos aviões, e uma parte das tarifas de pouso e de navegação aérea.  Segundo o anuário estatístico da ANAC de 2020, menos de 24,4% dos custos totais das empresas aéreas.

As tarifas aéreas brasileiras são totalmente compatíveis com as tarifas cobradas em outros mercados onde vigora a liberdade tarifária.  Para viajar economizando, planeje sua viagem com antecedência.  Tenha flexibilidade nas datas de ida e retorno.  Evite feriados e eventos esportivos e culturais.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal AirConnected

Adalberto Febeliano
Adalberto Febeliano
Adalberto Febeliano é engenheiro, pós graduado em administração pela FGV-SP e Mestre em Economia do Transporte Aéreo pelo ITA. Professor de Economia do Transporte Aéreo e de Planejamento do Transporte Aéreo no curso de aviação civil da Universidade Anhembi Morumbi por 7 anos, tem mais de 25 anos de experiência em aviação e transporte aéreo, tendo trabalhado em empresas como Mesbla Aviação, Líder Táxi Aéreo e GE Celma. Foi Diretor Executivo da ABAG – Associação Brasileira de Aviação Geral, Diretor de Relações Institucionais da Azul Linhas Aéreas e atualmente é Vice-Presidente de Operações Aéreas da MODERN Logistics, da qual é um dos sócios fundadores. É Diretor Adjunto da Divisão de Logísitca e Transportes do Departamento de Infraestrutura da FIESP e Conselheiro do Conselho Superior da Indústria da Construção Civil da mesma entidade.

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